Equívoco estratégico | Perdi meu amor na balada – Meio & Mensagem

A Nokia é vítima de uma cultura empresarial que não coloca em prática os investimentos que faz em pesquisa. Sacadinhas e virais não resolvem seus problemas

REGINA AUGUSTO

A série de três vídeos “Perdi meu amor na balada” é um daqueles tipos de ação que dizem muito sobre quem está por trás dele. Fazer um viral hoje passou a ser o próprio briefing de boa parte das empresas que não tem posicionamento de mercado e, exatamente por isso, não tem o que dizer. Estão simplesmente dispostas — ou desesperadas — em gerar buzz a qualquer custo.

Antes, porém, de analisar a empresa autora dessa iniciativa é necessário salientar um componente sociológico interessante na reação das pessoas a essa ação. Era mais do que óbvio que o primeiro vídeo, que encantou muitos corações que ainda acreditam na força do amor à primeira vista, era uma ação de marketing. O enquadramento propositalmente caseiro, a boa interpretação do rapaz apaixonado, a iluminação certeira, enfim, havia ali todos os elementos de algo feito para gerar barulho de maneira profissional. Acreditaram na história aqueles que ou são ingênuos ou estão mesmo muito suscetíveis a mensagens românticas. A reação negativa da revelação de que se tratava da divulgação do novo modelo de celular da Nokia, o 808, deixa claro esse lado, digamos assim, sensível das pessoas.

O problema não foi a ação em si, que foi até muito bem executada, mas ela não passa de uma sacada para esconder a falta de algo relevante a ser comunicado. Um fabricante de aparelho celular que, a essa altura do campeonato, mostra como principal feature de uma supercâmera os mesmos atributos que ela já oferecia há cinco, seis anos, é algo quase patético. E esse sim é problema da empresa.

Na sexta-feira 20, o jornal Valor Econômico trouxe uma reportagem extraí­da do The Wall Street Journal com o ex-diretor de projetos da Nokia, Frank Nuovo, o homem que há mais de dez anos fez apresentações para operadoras mundo afora mostrando modelos com tela sensível ao toque, geolocalizadores e um tablet. Os consumidores, no entanto, nunca viram nenhum desses aparelhos. Os produtos acabaram vítimas de uma cultura empresarial que esbanjava fundos em pesquisa, mas desperdiçava oportunidades de levar as inovações que produzia ao mercado.

O resultado todos já sabem. Após 14 anos liderando o mercado global de fabricação de celulares, a Nokia perdeu o posto para a Samsung, em 2012. O impacto disso ficou evidente nos resultados financeiros da empresa. Na semana passada, foi divulgado um prejuízo de € 1,41 bilhão no segundo trimestre, ante € 368 milhões um ano atrás.

A empresa teve anteriormente a visão de onde caminhava o mercado, mas, por problemas internos e decisões estratégicas erradas, simplesmente não colocou em prática seus planos. E, em um equívoco estratégico fatal, mudou seu foco, que era investir em smartphones, e se voltou para os celulares básicos, bem na época em que o iPhone surgia no mercado. E como diz melancolicamente o ex-projetista da empresa finlandesa: “Foi de cortar o coração ver a Apple saltar na frente com o conceito.”

Cada vez mais a Nokia está se tornando um case a ser estudado sobre como a falta de atitude e opções empresariais inadequadas podem levar uma empresa ao colapso em tão pouco tempo. Diante dessa realidade, as sacadinhas e virais são um sopro de vida em uma marca que está em franca decadência.

viaEquívoco estratégico.

Anúncios

Sobre danielhomemdaluz

Gerente Comercial, Consultor Comercial, Coaching, Palestrante e Corretor de imóveis.
Galeria | Esse post foi publicado em Artigos, Cenários, Internacional, Marketing, Telefonia e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s